Insulto geral

José Horta Manzano

Estes últimos meses, quem observa a política brasileira constata uma explosão da bandalheira. Costuma-se dizer que o problema não é novo, que está aí desde a chegada do primeiro governador da América portuguesa, que a pilantragem vem de longe.

Não há quem discorde. Assim mesmo, a insolência agora chegou a um nível tão elevado, que rebaixa nosso país ao que chamamos, com desdém, “república de bananas”.

Entre nós, peculato, tráfico de influência, nepotismo ocorrem por toda parte, de dia e de noite, à vista de quem quiser olhar. Em regimes ditatoriais, a regra é essa. No entanto, não conheço nenhum grande país dito “democrático” cuja vida pública desça a nível tão profundo de cinismo como ocorre em nossa terra. São crimes e deslizes audaciosos que, de tão comuns que estão ficando, já não despertam emoção na população anestesiada.

Que dizer da situação deste começo de semana?

  • Que, na ânsia de conseguir novo mandato para o presidente da República, o Executivo está atirando nosso dinheiro pela janela – como se não houvesse amanhã?
  • Que, esquecidos de terem sido eleitos para servir ao povo, nossos parlamentares continuam ultrajantemente se servindo dele (povo), sempre em prol do enriquecimento pessoal?
  • Que, até outro dia última barreira contra a pouca-vergonha crônica, o topo da magistratura abriu o jogo e mostrou que também sabe delinquir e comportar-se como quem paira acima da ralé (que somos nós).

O cidadão comum, aquele que ganha a vida com o próprio trabalho, paga seus impostos, não tem direito a privilégios e não atenta contra o Código Penal, acaba se sentindo desamparado, sem saber que santo invocar.

  • Votar nas eleições? Para escolher quem, se todas as farinhas parecem vir do mesmo moinho?
  • Esperar que os jovens parlamentares eleitos recentemente cresçam, amadureçam e se tornem pessoas responsáveis? Alguém acredita que isso ocorra um dia?
  • Aguardar os anos que faltam para que a Regra da Bengala afaste os integrantes dos tribunais superiores e que nova leva de magistrados, menos deslumbrados e mais comprometidos com a população, venham substituir os que se foram? Quem nos garante que os vindouros serão menos obscenos?

Se o distinto leitor e a graciosa leitora tiverem alguma ideia do que fazer, rogo escrever cartinha para a Redação. Agradeço antecipadamente.

Abertura na política externa

José Horta Manzano

Sem dúvida, é sempre mais fácil lidar e conversar com gente que compartilha nossas ideias. No entanto, de um chefe de Estado, espera-se mais que a opção pela facilidade. No fundo, não precisa ter qualidades especiais para tratar com “amigos” – isso está ao alcance de qualquer um. Somente os grandes estadistas conseguem trocar ideias de maneira civilizada com adversários ou desafetos.

Lula da Silva não é o primeiro nem o último lider a torcer o nariz para chefes estrangeiros cujas ideias não coincidam com as suas. Bolsonaro, seu antecessor, bem que procurou aproximar-se de seus pares, mas em geral foi rejeitado. Já com Lula é diferente. Sua fama de “pai dos pobres” o precede e consegue abrir-lhe portas que, para um outro, permaneceriam fechadas.

Em seus primeiros dois mandatos, um Luiz Inácio deslumbrado rodou mundo e foi, com encanto e volúpia, ao encontro de reis, príncipes e todos os que o quisessem receber. E todos queriam. Já neste terceiro governo, sabe-se lá por que razão – a lassitude própria da idade que avança ou a mágoa de ter passado pela casa prisão –, o fato é que o velho demiurgo parece mais emburrado, mais rígido e menos disposto a tratar com os que não professem sua visão de mundo.

Em vez de facilitar-lhe a existência, esse agarramento a princípios por vezes obsoletos fecha-lhe portas. E, por via de consequência, bota o barco brasileiro em águas mortas, de calmaria, de não avanço, transformando nosso país em ostra que se recolhesse à própria solidão.

Há males que vêm pra bem, costuma-se dizer. O vendaval Trump, que chacoalhou o mundo e, em especial modo, nosso país, terá tido ao menos o mérito de mostrar a nossos estrategos que pular de cabeça na fantasia do tal “Sul Global” é inútil e perigoso. Nada de bom pode sair de um balaio de gatos que inclui China, Índia, Rússia e nenhum país ocidental. O terceiro-mundismo podia cair bem nos anos 1970 de Gamal Nasser, Indira Gandhi e Jozip Bros Tito. Hoje, como dizer, está meio démodé.

Em política externa, não há amigos, há interesses. Acho completamente estúpido ver cúpulas do Mercosul em que um chefe de Estado não comparece porque “não se dá” com outro. Ora, não estamos falando de festa de batizado de sobrinho, gente. O nível é (ou deveria ser) mais elevado.

Me alegra ver que Lula, e os que lhe sopram sugestões ao ouvido, estão finalmente despertando para a realidade. Dirigentes passam, Estados permanecem. Há que passar por cima do fato de tal governante ser de direita e tal outro de esquerda. Tanto faz. Todos temos interesses comuns.

Nunca é tarde demais para fazer o certo. Que continuem nessa via.

Decepções

José Horta Manzano

Não sei se os pequerruchos de hoje ainda acreditam em Papai Noel. De criança, acreditávamos todos, ingênua e piamente. Escrevíamos cartinha, preparávamos lista de desejos. Uma vez cheguei a envelopar minha carta e enfiá-la numa caixa de correio. Não sei que fim levou.

Cada um tem sua própria vida, com encantos e choros que às vezes começam cedo. Se nada de mau acontecer antes, a primeira grande desilusão vem no dia em que a criança descobre que o bom velhinho não existe, que era apenas invenção dos mais velhos. Mas isso acaba passando.

Mais pra diante, a gente acredita (ou gostaria de acreditar) que os heróis da juventude fossem reais. Hoje, não sei o que encanta essa moçada de telefone na mão, mas os do meu tempo faziam força para acreditar na bondade do Zorro e na existência da kryptonita que dava força ao Super-Homem. A desilusão veio logo. Mas isso acaba passando.

Um pouco mais tarde, vi multidões se entusiasmando pelos comícios do Jânio Quadros, todos condoídos com a humildade daquele que fazia pausa no discurso para morder um sanduíche de mortadela. Eu não votava naquele tempo, mas vi muitos botarem fé no demiurgo. Foi um furo n’água que acabou custando caro ao país. Longa decepção. Mas isso acaba passando.

Décadas mais tarde, veio um momento especial em que a corrupção, mais robusta que de costume, saltou aos olhos da sociedade. Foi aquela sequência de mensalões e petrolões proporcionados por um partido que, de trabalhador, só tinha o nome. No poder, eles mostraram que eram bons mesmo para ganhar dinheiro no mole. A decepção foi chocante. Mas isso acaba passando.

Naquele momento surgiu, das brumas de Curitiba, um bravo juiz de província que, tal um Zorro ressuscitado, montou a cavalgadura e prometeu varrer a bandalheira. Entusiasmado, meio Brasil acreditou. Ao fim e ao cabo, foram descobrir que o personagem era tão desonesto quanto os que prometia combater. De ex-futuro presidenciável, baixou a crista e está hoje estacionado em Brasília, longe dos holofotes que já não se voltam para ele. Foi chata, a decepção. Mas isso acaba passando.

Mais uma década escorreu. Veio um Bolsonaro, que quase levou o Brasil para o beleléu. Escapamos de nos apequenar a ponto de virarmos um El Salvador, minúsculo país ditatorial idolatrado pela extrema-direita nacional. Vejam só que despautério! Muitos dos que tinham votado em Seu Jair se arrependeram. A decepção foi brutal. Mas isso acaba passando.

Pra tirar da boca o gosto amargo de quatro anos de ignorância, insultos e agressões, nosso “monstro da pandemia” foi levado ao banco dos réus, julgado, condenado e encarcerado. A proeza se deve à ferrenha disposição do juiz a quem coube, veja a sorte que tivemos, cuidar do processo. No começo, ninguém acreditava que Bolsonaro fosse um dia levado aos tribunais. Foi. Depois, poucos imaginavam que fosse condenado. Foi. Em seguida, ninguém podia crer que fosse um dia preso. Foi. Só por essa façanha, uma estátua deveria ser erguida em homenagem a doutor Alexandre de Moraes, a quem o Brasil deve a não banalização de um golpe de Estado.

Só que… ninguém é perfeito. Talvez inebriado pela visão da futura estátua de bronze, doutor Moraes exagerou na dose. As notícias ainda não estão claras, mas há indicações de que misturou os pincéis, isto é, valeu-se de seu prestígio, de seu poder e de sua força para obter favores que, sem isso, não teria obtido. Se as acusações, por ora veladas, forem verdadeiras, ficará mais uma vez provado que a imisção do privado no público (e vice-versa) permeia as altas esferas da nação. Era assim no tempo de Tomé de Souza e continua assim nos tempos atuais.

Acho que nem é possível falar em decepção. Será que isso acaba passando?

Conselho de Paz

Conselho da Paz
20 membros fundadores

José Horta Manzano

Davos, 21 janeiro 2026
A fila de espera para entrar no recinto em que Donald Trump era esperado para discursar estava “de dobrar a esquina”. (Que se entenda essa expressão em sentido poético, pois, com o frio que faz em Davos, ninguém ia esperar na esquina.) Armaram uma fila interna, como as que se vêem em check in de aeroporto. O discursante, a estrela do espetáculo, chegou atrasado em razão de problemas técnicos no Air Force One.

Em silêncio de catedral, o presidente dos EUA foi ouvido. Falou sem parar durante mais de uma hora. Se espremermos a fala pra extrair o suco, vamos descobrir que não disse nada além do que todo o mundo já tinha ouvido antes. Passou quase todo o tempo autoelogiando-se e desdenhando o trabalho do governo Biden, seu predecessor. É um de seus esportes preferidos, uma fixação.

Nesse particular, Trump me lembrou o Lula, que passou o primeiro mandato reclamando do antecessor (FHC) e se lamentando que tinha recebido uma “herança maldita”. Quando a reclamação é repetida ao ponto de virar mantra, o ouvinte deve desconfiar.

Da Venezuela, Trump disse pouca coisa. É pena, porque esse assunto nos interessa de perto. Insultou quanto pôde seus parceiros europeus, sem ir além do que já tinha dito anteriormente. Nenhuma novidade.

Novidade mesmo é sua ideia de criar um “Conselho de Paz” para funcionar em paralelo com a ONU. Terá o mesmo nobre objetivo, que é manter a paz no mundo, mas com diferenças fundamentais. Pelo que se vê, quem vai mandar no tal Conselho é um Donald Trump secundado por sua equipe, os companheiros de sempre. A dominação dessa “equipe fundadora” já ficou visível no convite aos futuros participantes: eles decidiram sozinhos quais países seriam convidados e quais seriam excluídos.

China e Rússia fazem parte dos eleitos. Também a Ucrânia, que já declarou ser impensável sentar-se em torno de uma mesa junto com a Rússia. Todos os países europeus foram chamados, mas quase nenhum confirmou até agora. Convidado, o Canadá respondeu que nem em sonho pagaria o bilhão de dólares exigido de cada participante. Um bilhão de joia, como num clube de luxo!

Os que já correram pra confirmar presença são os bons amigos de Trump, como Argentina, Israel e Hungria. Já a França e a Noruega recusaram logo de saída. Segundo Trump, “todo o mundo quer fazer parte”. Não parece. Dos cerca de 60 convidados, nem metade confirmou até agora. Entre os que disseram sim, estão: Azerbaidjão, Kosovo, Cazaquistão, Bahrein, Marrocos, Armênia. Uma seleção pra ninguém botar defeito.

Se posso dar um conselho à equipe de Lula, será o de pensar duas vezes antes de responder. Antes de mais nada, acho pretensioso, da parte de quem dá a festa, mandar “convite” e ainda cobrar um bilhão de dólares de entrada. Um montante assim deixa de ser simbólico e passa a significar enriquecimento ilícito à custa de quem pode menos. E, no fundo, esse dinheiro vai para quem? Para o tesouro americano? Para o bolso de Trump? Não ficou claro.

Donald está utilizando o truque da adulação. Está atiçando a vaidade de cada um. Muita gente se sentiria orgulhoso de sentar-se ao lado de Trump em volta de uma mesa – o saudoso Bolsonaro já caiu nessa, anos atrás, quando aceitou convite para jantar (e pernoitar) em Mar-a-Lago. Para ter esse privilégio, muito líder pagará o preço que for (sobretudo porque o dinheiro sairá do tesouro nacional, não do bolso do convidado).

Lula é vaidoso e sensível a marcas de apreço dadas por dirigentes mundiais. É por isso que advirto: Lula, prezado presidente, segure-se, conte até dez, tome um chuveiro d’água fria, respire fundo, dê um passeio na grama, converse com as emas, tire férias em Garanhuns. Mas recuse esse convite. O Brasil vai deixar de gastar um bilhão de dólares e vosmicê vai evitar passar vergonha.

O que Trump quer é estar rodeado de anjos que lhe digam amém. Ou alguém imagina que esse “conselho” tem vocação para o diálogo e a negociação?

Segure-se, Lula. Fuja dessa, meu irmão.

Board of Peace – logo

Davos, 21 janeiro 2026
Trump aproveitou estar em Davos para reunir solenemente os “membros fundadores” de seu clube. Assinaram a ata de fundação os seguintes países:

• Argentina — Presidente Javier Milei
• Armênia — Primeiro-Ministro Nikol Pachinyan
• Azerbaidjão — Presidente Ilham Aliyev
• Bahrain — Xeique Isa bin Salman Al Khalifa
• Bulgária — Primeiro-Ministro Rosen Jelyazkov
• Catar — Primeiro-Ministro Xeique Mohammed bin Abdul Rahman Al Thani
• Cazaquistão — Presidente Kassym Jomart Tokayev
• Emirados Árabes Unidos — Ministro Khaldoon Al Mubarak
• Hungria — Primeiro-Ministro Viktor Orbán
• Indonésia — Presidente Prabowo Subianto
• Jordânia — Primeiro-Ministro Ayman Safadi
• Kosovo — Presidente Vjosa Osmani
• Mongólia — Primeiro-Ministro Gombojavyn Zandanchatar
• Marrocos — Ministro de Relações Exteriores Nasser Bourita
• Paquistão — Primeiro-Ministro Xehbaz Xarif
• Paraguai — Presidente Santiago Peña
• Saudi Arabia — Ministro de Relações Exteriores Faisal bin Farhan Al Saúd
• Turquia — Ministro de Relações Exteriores Hakan Fidan
• Uzbequistão — Presidente Chavkat Miromonovitch Mirziyoyev

Como se pode ver, só gente fina. Nenhum europeu, com exceção da Hungria e da Bulgária. Nenhum latino-americano, com exceção de Argentina e Paraguai (nem mesmo El Salvador topou). Nem China, nem Rússia, nem Canadá. Um detalhe curioso: Israel anunciou sua adesão mas, na hora agá, não assinou. Talvez não tivessem levado um bilhão de dólares no bolso, o que era condição incontornável. Nesse caso, assinar mais tarde.

Segura-te, Lula!

Um último detalhe, pequeno, mas que diz muito. Observe o mapa-múndi do logo. Reparou em algo inusitado? Pois é claro! Pra ser mapa-múndi está xinfrim. Só aparecem a América do Norte e um pedacinho da América do Sul e da Groenlândia. Será esse o mundo de Trump? Com um logo desses, como é que ele pretende resolver problemas do planeta inteiro? Ainda precisa comer muito feijão.

Acordo Mercosul-UE: uma boa coisa?

José Horta Manzano

O Acordo de Associação Mercosul-União Europeia começou a ser negociado 27 anos atrás, em junho de 1999, ao tempo em que o Brasil era presidido por FHC. Foi assinado fim de semana passado, num convescote em Assunção do Paraguai que reuniu dirigentes do Mercosul além de Ursula von der Leyen (presidente da Comissão Europeia) e António Costa (presidente do Conselho da Europa).

Durante essas quase três décadas, o futuro tratado permaneceu recôndito, perdido nos escaninhos da pesada burocracia europeia reforçada pela cacofonia sul-americana. Agora, mesmo assinado com discursos ufanistas e bandeiras festivas, a peregrinação da papelada ainda não chegou ao fim. Falta ser referendado pelo Parlamento de cada país membro da UE e do Mercosul. São mais de 30 assinaturas, cada uma requerendo discussão, voto, e todo o tralalá. Só depois de assinado pelo último parlamento nacional, entrará o tratado em vigor. Enfim.

“Carne de gado” é expressão caída em desuso. Há de ser consequência da hipocrisia que se alastra nestes tempos em que o sem teto virou “cidadão em situação de rua” e a favela se tornou “comunidade”. Uma vez banida a desagradável expressão que evoca bois cortados ao meio sendo carregados no ombro de portadores vestidos de branco, como se se buscasse acentuar a imagem sanguinolenta do espetáculo, hoje convém dizer “proteína animal”.

Pois é justamente essa “proteína”, assim como produtos agrícolas exportados pelos sócios do Mercosul que botaram medo no consumidor europeu. Se a conclusão do tratado recém-assinado tardou, foi em consequência desse nó. As autoridades europeias sabem que as regras que estipulam o que é permitido (e o que não é) não são as mesmas dos dois lados do Atlântico.

Na França, ao se referirem à carne importada de Brasil e Argentina, os agricultores costumam dizer, com desdém “bœuf aux hormones” (boi com hormônios). A mesma desconfiança se aplica a produtos agrícolas, dado que, na América do Sul, a quantidade de diferentes pesticidas permitidos é maior que na Europa. Até certo ponto, é surpreendente que, apesar desses bloqueios, a UE tenha finalmente consentido em assinar o tratado.

Em artigo desta segunda-feira, Mafalda Anjos, escritora portuguesa, considera que “as ameaças de Trump ajudaram que [a Europa] caísse nos braços da América Latina”. Pode até ser, embora me pareça uma explicação meio romanceada.

Já na Suécia, país sem grandes pretensões agropastoris, autoridades se manifestaram pela publicação “Dagens Industri” e aplaudiram contentes o acordo. Para eles, trata-se de “uma vitória para os países do mundo livre”. E acrescentam que “Numa época em que os países se voltam para dentro e a cooperação internacional é questionada, a UE e a região do Mercosul escolhem outro caminho. Um caminho caracterizado pelo comércio em vez do protecionismo, pela cooperação em vez da divisão e pelo crescimento em vez da estagnação”.

Me parece uma esperança enorme! Mas acho que os suecos têm razão. Mesmo se o acordo (ainda) não é perfeito, sempre pode ser modificado. De todo modo, mais vale um acordo imperfeito que acordo nenhum. Isso assume especial importância num mundo instável em que o nosso está se transformando.

Nesta ordem mundial que está fazendo água, os pré-náufragos que somos precisamos encontrar algum pedaço de madeira resistente ao qual nos agarrar.

Morrer pela Groenlândia

Nuuk, capital da Groenlândia

José Horta Manzano

Ao pé das montanhas geladas da Groenlândia estão para ser delineados parâmetros para o convívio das nações neste 21° século. A depender do que aconteça nas próximas semanas e meses, o futuro da humanidade dará um tímido passo adiante ou regredirá dois séculos e sacramentará a vigência da lei do mais forte.

Passado o pesadelo da Segunda Guerra Mundial, a quase totalidade dos países se reuniram na recém-criada ONU para pôr ordem no tabuleiro e fixar regras que evitassem conflitos e guerras. Essas regras nem sempre foram respeitadas, mas permaneceram, por décadas, como balizas de como as coisas deveriam ser.

De lá pra cá, a integridade e a soberania nacional nem sempre foram respeitadas.

Em 1950, a China, por ordem de Mao, invadiu o Tibet que, após longo período de distúrbios, acabou anexado pelo invasor e se tornou parte integrante da República Popular.

Em 1979, foi a União Soviética a invadir o Afeganistão; Moscou só mandou retirar suas tropas depois de 9 anos de ocupação.

Os Estados Unidos, por seu lado, mantiveram a tradição de invadir ou intervir, por curtos períodos, em numerosos países; tirando a guerra do Vietnã, que durou doze anos, as outras intervenções foram mais breves, da Coreia à Líbia.

Ao ameaçar tomar posse da Groenlândia, Donald Trump eleva a novo patamar o desrespeito à soberania de países estrangeiros. A Otan, tratado de defesa mútua ligando EUA, Canadá e quase todos os países europeus, estipula que o ataque armado a um dos países signatários será considerado um ataque a todos os outros, que, por seu lado, se comprometem a defender o atacado.

O tratado não prevê a invasão de um país membro por tropas de outro país membro. Caso os EUA de Trump cumpram sua ameaça de tomar a Groenlândia pela força, não faz sentido pensar num confronto EUA x todos os demais países membros. Primeiro, por uma questão ética e segundo, porque a força militar americana é superior à de todos os signatários da Otan reunidos. Os europeus não estão dispostos a mandar sua juventude ao campo de batalha morrer pela Groenlândia.

A Dinamarca é a proprietária daquela imensidão gelada. Por mais que seja civilizada e rica, a Dinamarca é um país pequenino, do tamanho do estado do Rio de Janeiro, com 6 milhões de habitantes. Imagino que, se a proprietária da Groenlândia fosse o Reino Unido ou a França, países mais fortes que possuem a arma nuclear, Trump pensaria duas vezes antes de ameaçar tomar o território à força.

Estes dias, há muito movimento em torno do assunto. Um detalhe absurdo é de se notar: oito países da Otan estão mandando tropas para defender a Groenlândia de um ataque americano: Alemanha, Reino Unido, França, Suécia, Noruega, Finlândia, Holanda e Estônia. A Europa se defendendo de ataque militar americano! É surreal. São tropas reduzidas, de valor simbólico, mas demonstram a disposição dos europeus de não permitirem que Washington leve um pedaço de seu território.

Trump, que tem em mãos a força bruta, é imprevisível. Se ele decidir que quer porque quer levar a Groenlândia, ninguém poderá detê-lo. Se isso ocorrer, a conquista de território alheio pela força estará, daqui pra diante, autorizada.

Só nos resta apreciar a movimentação e torcer para que o pior não aconteça.

Bem-vindo ao verão brasileiro em tempos de aquecimento global

Brazilian summer

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Já ao acordar, você sente um fio de suor escorrendo lentamente do seu couro cabeludo, percorrendo toda a extensão dos fios de cabelo da sua nuca, pingando e se espraiando pelo pescoço. De lá, ele se junta a outros fios de suor que escorrem da fronte e das têmporas e vai aos poucos formando um rio caudaloso que invade o peito, o espaço entre os seios, escorre pela barriga, desce pelas axilas, costas, braços e pernas. Em poucos minutos, seu corpo vira um pântano pegajoso que faz suas roupas grudarem na pele e começarem a exalar mau cheiro.

Você entra no chuveiro, na vã esperança de encontrar um mínimo de alívio. Mas descobre logo de cara que de nada adianta optar por uma chuveirada gelada porque parece que seu corpo a entende como provocação: tão logo você fecha a torneira, ele revida e a transpiração amazônica retorna a todo vapor. Outra descoberta que você faz segundos após sair do banho é que parece que seu corpo não vai ficar enxuto nunca mais: o simples esforço de esfregar a toalha na pele ou de se inclinar para enxugar os pés já detona a volta de uma atividade desenfreada das glândulas sudoríparas. Só lhe resta deitar-se nua em um quarto escuro, com o ventilador ligado, e permanecer imóvel por pelo menos quinze minutos. Esqueça o perfume e o creme hidratante: parece que qualquer produto adicionado à pele cria uma barreira térmica que tapa os poros e multiplica a sensação de calor.

Assim que você se levanta novamente para colocar a roupa, a sensação é a de que faz mais de um ano que você não toma banho: seu corpo já está melecado de novo. Inútil voltar para o chuveiro, uma vez que o ciclo vai se repetir inexoravelmente. Mesmo inconformada, você se veste com as roupas mais leves possíveis e tenta se concentrar nas tarefas do dia. Se o trabalho é fazer a faxina e depois preparar o almoço, você transpira como se estivesse fazendo crossfit numa academia lotada e sem ar condicionado. Se o trabalho é de ordem intelectual, seu cérebro simplesmente se recusa a obedecer a comandos: as células nervosas já entraram em curto e a conexão entre Tico e Teco cai a cada 10 minutos mais ou menos.

A irritação só faz crescer ao longo do dia. Sua fome evapora. Todos os seus órgãos internos parecem ganhar uma dose extra de sensibilidade: seu pulmão joga a toalha de puro cansaço por ficar puxando o ar quente; seu estômago dói caso você ingira algo um pouco mais substancioso e a náusea sobe ao seu esôfago tão logo você sente o cheiro de comida quente; seu fígado entra em colapso com qualquer alimento gorduroso e seu intestino se solta minutos após você ter ousado comer algo mais condimentado.

As emoções se descontrolam. O barulho e a luz incomodam, fazendo você querer se isolar. Qualquer estímulo imprevisto, seja um telefonema de telemarketing ou uma discordância casual de pontos de vista, tende a servir de gatilho para uma crise nervosa. As sensações de cansaço, tontura, dor de cabeça, dor nas costas e peso nas pernas fazem você se sentir com 90 anos de idade e sua aparência desgrenhada a leva a acreditar que é indigna de afeto.

Por volta das 4 horas da tarde, você olha pela janela e percebe que se anuncia uma tempestade daquelas e que, provavelmente, se isso acontecer, você vai ficar sem luz devido à queda de árvores sobre a rede elétrica. Falta de luz leva à falta de água pelo colapso das bombas, o que significa que não haverá outro banho à vista até o final do dia ou até o dia seguinte. As nuvens cor de chumbo e o vento violento avisam que é preciso fechar as janelas, mas como? Não dá nem para imaginar como será possível respirar num ambiente totalmente fechado quando a sensação é de já estar com a cabeça enfiada dentro de um forno aquecido. Você reza para que a temperatura despenque tão logo o temporal acabe, mas suas preces são solenemente ignoradas: do solo aquecido sobe um vapor de água quente e a sensação de mormaço fica ainda pior.

Mais à entrada da noite, a temperatura se estabiliza por volta dos 28/30 graus e segue caindo lentamente, chegando aos 21/23 graus por volta da meia-noite. A pergunta, então, passa a ser: quem consegue dormir confortavelmente com todo esse calor? Mesmo descartando as cobertas, o mais provável é que você acorde ainda de madrugada mergulhada em uma poça gigante de suor, que toma conta até dos travesseiros.

Exagero? Pode ser que sim, mas aprendi que muitas vezes é preciso exagerar para ser entendida. Só quem passou pela experiência do verão em terras brasileiras na última década pode dizer se esse relato cru retrata ou não a realidade. Certamente, não se trata de um relato totalmente isento: além de se referir a sensações eminentemente femininas, admito que ele é reflexo de um provável trauma meu de infância. Nasci num mês de fevereiro e fico esbaforida só de pensar no calor que qualquer recém-nascido era obrigado a enfrentar naquela época. Para quem não sabe, o costume era colocar no bebê primeiro uma camisetinha pagão para absorver a umidade da pele, por cima vinha um macacãozinho de um tecido mais encorpado que cobria os pés (ou, pior ainda, eram colocados sapatinhos de lã) e, na sequência, o bebê era enrolado num cueiro, com os braços presos para baixo. Inacreditavelmente, aquele infeliz temaki gigante era acomodado no berço, coberto por uma mantinha de lã. Como se não bastasse, não raras vezes as janelas do quarto do bebê eram mantidas fechadas, just in case…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Política pelo espalhafato

Oceano Ártico

José Horta Manzano

Como político, Donald Trump é inclassificável. Não se encaixa em nenhum modelo habitual. Autoritário é, mas não atinge os cumes a que chega um Putin; Trump sabe quando é chegado o momento de dar meia-volta. Personalista também é, mas ainda está para aparecer um líder que não o seja. A ignorância é outra de suas características, mas não é um não saber incurável que um bom assessoramento não possa mitigar.

O que distingue a personalidade de Trump são as palavras e os atos espalhafatosos, imoderados, apesar disso assumidos plenamente. Ordena ações militares pontuais que surpreendem e assustam, sem necessariamente resolver problemas.

O bombardeio do Irã, em junho de 2025, foi espetacular, mas passou longe de eliminar as instalações nucleares do país. Assustou, mas, de resto, foi pra inglês ver.

Ainda outro dia, anunciou ter bombardeado posições da guerrilha islamita em território sírio. Todo o mundo sabe que guerrilha não se combate com bombas lançadas por aviões.

A armada que Trump enviou para as costas venezuelanas era digna de uma batalha naval – que nunca houve, justamente por não estar no programa. A frota de guerra permaneceu semanas inteiras até que uma noite um comando foi mandado a Caracas, entrou atirando e capturou o presidente do país. Goste-se dele ou não, era o presidente, ainda que sua eleição fosse contestada. Para escárnio do mundo, o sequestrado foi levado para os Estados Unidos e lá exibido como animal de feira, mãos algemadas, pés entravados, macacão cor de abóbora. Por pouco, os curiosos não lhe lançaram bananas e pipocas. Dez dias depois, Trump declarou entender-se bem com a peona chavista que substituiu o ditador venezuelano. E tudo bem, que a vida segue. Moral da história? Tire a conclusão que lhe agradar.

Como se vê, o espalhafato é componente essencial da política trumpista. Há que conceder-lhe o mérito de atrair em permanência as atenções para sua pessoa.

Desde que assumiu o mandato, um ano atrás, Trump apregoa a quem quiser ouvir que a Groenlândia “tem de ser” americana, doa a quem doer. Se não for pelas boas, será pelas más, – promete ele. Volta e meia, torna a repetir o mantra da Groenlândia.

Não é de hoje que os Estados Unidos estão interessados em adquirir a Groenlândia. Faz século e meio que estão tentando. Mas é fácil entender por que razão o interesse cresceu dramaticamente nos tempos atuais. O aquecimento global (que Trump garante ser balela) está aí, só não vê quem não quer. Com os gelos eternos do topo do globo derretendo a olhos vistos, imensas possibilidades se abrem.

Novas vias navegáveis, antes bloqueadas por uma calota de gelo, começam a se abrir. O derretimento do gelo groenlandês tem duas consequências imediatas. A primeira é a subida do nível dos oceanos, e a inundação progressiva de baixios costeiros no mundo todo. A segunda é o afloramento de terras e rochas da Groenlândia, antes cobertas de neve e gelo, abrindo a possibilidade de exploração de suas imensas riquezas minerais.

Acostumados que estamos a ver o mapa-múndi tradicional, com as Américas à esquerda e a Ásia à direita, nos parece que a América do Norte e a Rússia estão muito distantes. E que a Groenlândia não tem a ver nem com esta nem com aquela. Basta mudar o ponto de vista e desenhar o planisfério com o Polo Norte no centro (ver ilustração). Agora, sim, dá pra entender que a Groenlândia é uma imensa ilha situada bem no meio do caminho entre a América do Norte e a Rússia. A distância do Canadá para o norte da Rússia (= a largura do Oceano Ártico) é de menos de 2.000km. Um pulinho.

Fica, agora, mais claro o porquê do interesse obsessivo de Trump pela ilha dinamarquesa. Tenho palpite que, com ou sem espalhafato, o presidente americano vai acabar conseguindo o que deseja.

Três semanas atrás, por acaso alguém imaginaria que, em uma noite, Maduro seria capturado e exfiltrado da Venezuela para nunca mais voltar?

Tratado de Tordesilhas 2.0

O mundo segundo Trump
by 1alex06Alex/

José Horta Manzano

Aprendemos na escola que, no mês de junho de 1494, embaixadores dos reinos de Portugal e de Castela (Castilha) se encontraram na localidade castelhana de Tordesilhas para firmar um tratado que dividia as terras por descobrir entre Portugal e Espanha. Aquele documento de 532 anos atrás foi posteriormente avalizado pelo papado, beneplácito indispensável num tempo em que o poder espiritual pairava acima do temporal.

Com a queda dos grandes impérios, no início do século XX, e com o processo de descolonização, nos anos 1960, a lei do mais forte, que tinha vigorado desde que o mundo é mundo, perdeu vigor. O planeta até acreditou estar assistindo a um movimento irreversível em direção a uma era de relações pacificadas entre Estados, baseadas no direito internacional e numa coexistência civilizada.

A prova dessa repulsa a guerras de conquista foi dada em 2014, quando a Rússia, tendo anexado a Crimeia pelas armas, foi afastada do círculo de países “normais” e escanteada para uma posição de “nação pária”, privada até de G8 (que se tornou G7).

A história seguiu assim, incerta, até que, sob o olhar apreensivo e impotente do resto do mundo, os eleitores americanos escolheram Donald Trump para presidir o país pela segunda vez. A partir daí, o mundo entraria em progressivo desequilíbrio. Todos os dogmas que imaginávamos definitivos e gravados na pedra ruíram. Tradicionais políticas internacionais de diálogo e dissuasão deram lugar à lei do mais forte, um recuo acentuado na história da humanidade.

Hoje assistimos, esgotados e desarmados, a um Trump voluntarioso, que ataca a vizinha Venezuela com porta-aviões, encouraçados, centenas de aviões e helicópteros, mísseis, militares e forças especiais, tudo isso para abduzir o líder do país e levá-lo para longe. Notas de “forte condenação” foram a expressão mais incisiva dos países ao redor do planeta, espantados e intimidados perante o espetáculo de força dado pelo Estado mais poderoso do mundo.

A agressividade de Trump, aliada a sua mansidão para com Putin e à distância que ele mantém de Pequim sugere que os tempos chegaram para a ressurreição do velho Tratado de Tordesilhas, agora em versão 2.0 e dispensada de bênção papal.

De fato, a cada dia que passa, nos apercebemos que, na cabeça de Trump, a ideia é ver nosso planeta subdividido em 3 zonas de influência. A primeira, que os EUA reservam para si, inclui as Américas e a Groenlândia. A segunda, destinada a viver sob influência de Moscou, cobre a Rússia, a Europa, os países da finada URSS e o norte da África. A terceira e última deve ser a área de influência de Pequim; compreende as demais regiões do mundo (ver mapa).

Acredito que Putin se sinta honrado e contente de ver que futuras agressões à Europa e aos antigos países satélites estejam, desde já, implicitamente reconhecidas por Trump. Já quanto a Pequim, não tenho certeza de que sua visão globalista coincida com o esquema que Trump parece propor. Não é do feitio chinês renunciar a comerciar com todos os países.

O mundo está entrando de pé firme numa nova era. Pode incomodar (e certamente incomoda) muita gente, mas não deixa de ser fascinante.

Uma lágrima por Maduro

by Patrick Chappate (1964-), desenhista suíço

José Horta Manzano

O povo e a lágrima
Uma lágrima por Maduro… quem é que vai derramar? O caricato caudilho reinou sobre a Venezuela por anos e acabou abduzido por forças militares provenientes justamente do odiado “império”. Que ironia… Com certeza, não será seu próprio povo que vai deixar rolar uma lágrima de saudade. A imensa maioria da população venezuelana se encontra agora num estado desconfortável, em que cabem a esperança de dias melhores, uma pitada de euforia reprimida e uma visível apreensão.

A reportagem da BBC fez curtas entrevistas com transeuntes, numa Caracas em que ainda fumegavam as ferragens retorcidas de veículos militares bombardeados. Uma caraquenha, sob condição de anonimato, confessou que os venezuelanos querem apenas “viver sem medo”. Acrescentou que “o importante não é o petróleo, mas a liberdade da Venezuela e um futuro melhor para seus habitantes”. Disse ainda que “ninguém teria escolhido esse modo de fazer uma transição política, mas alguma coisa precisava acontecer”.

No amanhã do bombardeio da cidade e da captura de Maduro, Caracas esteve calma, mergulhada num ambiente pesado, em que ninguém ousava comentar os acontecimentos. Não é da noite para o dia que se destravam bocas caladas há anos sob o jugo da repressão onipresente. Regimes autoritários como o de Maduro se sustentam silenciando opositores e vozes discordantes. Na dúvida, silenciam-se todas as vozes.

Um vizinho simpático pode representar perigo: seria talez um informante a soldo do regime? O mesmo vale para a senhora transpirada, logo à sua frente na fila do caixa do supermercado: estaria assuntando as conversas dos demais? No Brasil, desde 1985, nos desacostumamos a viver dessa maneira, baixando os olhos e falando pelos cantos. Os patetas que hoje clamam por uma ditadura militar não fazem a menor ideia do que seja viver num regime desse naipe. São uns pobres bugres ignorantes, alegres mas sem noção.

Meia-volta volver
Sob todos os aspectos, o ataque à Venezuela foi acintoso, um atentado contra o direito internacional. Praticado pelos Estados Unidos, país membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, o fato assume proporções assustadoras. É um abalo forte nas normas de convivência internacional e anúncio sinistro de guinada ao passado, ao tempo em que o mundo se dividia entre metrópoles e suas colônias.

Contra a lei da selva, nada se pode fazer. Os EUA são mais poderosos que todos os demais países americanos reunidos. Portanto, o que está feito, feito está. A “jus sperneandi”, neste caso, não vige.

A prisão do líder
Não acho muito certo hospedarem Maduro numa prisão comum nos EUA, a exemplo do Metropolitan Detention Center (no Brooklyn, NY) prisão em que se encontra atualmente. Não digo isso por uma questão de manter privilégios, mas há que convir que personalidades públicas têm um grau de exposição mais elevado que um cidadão comum. O risco de ser maltratado, ferido ou até assassinado por outro(s) detento(s) é grande. Pelo mesmo motivo, não gostaria que Lula ou Bolsonaro fossem metidos na Papudona, no Centro de Detenção de Pinheiros ou em Bangu. Uma quentinha envenenada pode ser servida a qualquer momento.

Dado que não é possível construir uma prisão especialmente para Maduro, acredito que a melhor solução seria pô-lo em prisão domiciliar vigiada. Ele e a esposa teriam, daqui até o fim de suas vidas, tempo suficiente para refletir sobre os erros cometidos e os bilhões de dólares perdidos. Que, aliás, podem bem se encontrar abrigados, em nome de laranjas, em bancos americanos.

Conselho a Mr. Trump
Este recadinho vai direto para Mr. Donald Trump que, como todos sabem é leitor assíduo deste blogue.

Dear Mr. Trump,

Congratulações pela espetacular intervenção na Venezuela e pela cinematográfica abdução do pranteado Nicolás Maduro – que ainda há de render filmes hollywoodianos no futuro.

Agora, que as supimpas Forças Especiais americanas estão ainda mais bem treinadas, sugiro-lhe preparar uma ação para raptar aquele que – esse, sim! – tem sido a causa de milhares de mortes diárias e dores de cabeça para o resto do mundo. Falo de Vladimir Putin.

Ordene a suas Forças Especiais que infiltrem Moscou e colham aquele criminoso que lá se esconde, um personagem muitíssimo mais nocivo e perigoso que o tosco Maduro.

O senhor receberá aplausos do mundo inteiro e, de quebra, garantirá seu tão desejado Prêmio Nobel da Paz!

Agradecimentos antecipados.

2025: o ano da normalização do anormal

 

by Valdo Virgo, desenhista
via Correio Braziliense

Artigo publicado no Correio Braziliense de 28 dezembro 2025

José Horta Manzano

Já estamos no futuro? Pois ele me parece bem diferente de tudo o que costumavam nos prometer no passado. Nos diziam que, no século 21, tudo seria “atômico” (termo da época para designar a modernidade), que os carros deslizariam pelo ar, que a comida se resumiria a pílulas coloridas, que viajaríamos à Lua com a velocidade do pensamento. Tirando o russo Putin, que não se cansa de nos lembrar que ele a possui, a arma atômica saiu do noticiário. Carros continuam se arrastando no engarrafamento insano das metrópoles. A comida continua baseada em prosaicos arrozes e feijões. Apesar de uma ou outra nave enviada à Lua, o astro continua mais ao alcance dos namorados que dos turistas.

Mas que diferença há então entre hoje e algumas décadas atrás? Vivíamos na quase certeza de que uma guerra entre nações de Europa e América fosse fantasma do passado, devidamente exorcizado e enterrado. Trágico engano. Aliás, essa impressão de paz garantida está entre os fatores que contribuíram para o ressurgimento de robustas falanges de extrema direita. A assunção do presidente Trump, em janeiro 2025, assustou as gentes e ribombou como trovão em céu azul. Brutal e impiedoso, o novo inquilino da Casa Branca, verdadeiro viking emerso de tempos primitivos, passou a comportar-se como se senhor dos mundos fosse. Ameaçou anexar o Canal do Panamá, a Groelândia e até seu vizinho do norte, o imenso Canadá. Prometeu expulsar 11 milhões de estrangeiros. Fez olhos lânguidos para o déspota Vladimir Putin. Bombardeou o Irã. Afagou Netanyahu, enquanto este destruía, com canhões e mísseis, o formigueiro miserável em que Gaza se transformou. Para coroar, aumentou dramaticamente os impostos de importação americanos, perturbando os fluxos da economia mundial.

Após o fulgurante progresso que tem feito, a IA deixa de ser vaga promessa e vai-se instalando como infraestrutura silenciosa de poder. A política econômica global passou a viver aos sobressaltos, com juros elevados e crescimento baixo. Todos os países, sem exceção, vivem em permanente estado de alerta, sempre na aflitiva espera do próximo anúncio bomba de Mr. Trump. O anormal normalizou-se.

E o Brasil nessa ebulição? É curioso notar que, em nosso país, dispensamos influências d’além-mar para abalar o curso de nossa existência. Sabemos muito bem como nos aperrear nós mesmos. Na política brasileira, 2025 foi o ano em que o futuro perdeu o glamour. Tivemos, já para o final do ano, o julgamento dos réus da sedição de 22-23, que deixou um epitáfio nulo: nenhum dos condenados exprimiu arrependimento – numa confirmação tácita que dispensa confissão.

Para quem ainda contava com alguma renovação do discurso político, o que sobrou foi a sempiterna gestão de crises. Assistimos à ressurreição de debates antigos, como soberania, nacionalismo, protecionismo. Incansável, o discurso presidencial insiste na velha pregação lulopetista de um Estado forte. Apesar da renovação pela qual passou a Câmara, com a entrada de representantes mais jovens e, esperava-se, portadores de ideias novas, nossa política continua entravada, pouco criativa, distante dos anseios dos eleitores, sempre mais reativa que propositiva. O próprio governo e, em certa medida, também a oposição, jogam para “não perder”, com pouco empenho em se preparar para as transformações de 2026.

Assim, vamos nos preparando para as eleições do novo ano, com pouca imaginação e uma dose de temor. O ‘Centrão’ vai se ampliando como força dominante de nosso Congresso, um agrupamento de contornos indefinidos, com parlamentares sem grude que os ligue, unidos tão somente por uma ganância sem freios, indigna de representantes do povo. Esse centro, em que vicejam personalidades amorais e apolíticas, funciona como espaço de contenção, não de liderança.

Se 2025 nos ensinou algo, foi que a política não está à beira de uma ruptura, mas está se acomodando num estado crônico de tensão estéril. É possível que 2026 não traga grandes eventos. E talvez seja exatamente isso que devemos temer.

Feliz ano novo a todos.

Direto para o segundo turno

Pesquisa Genial/Quaest
Cinco cenários de segundo turno

José Horta Manzano

Parecia blefe. Dez dias atrás, quando o encarcerado Bolsonaro designou o filho mais velho para suceder-lhe, pouca gente levou a sério. Este escriba, aliás, publicou neste mesmo espaço um texto um tanto sarcástico. O anúncio da escolha do filho me pareceu anzol pra fisgar peixe distraído. Imaginei que um candidato de sobrenome Bolsonaro carregasse um carma pesado demais para transpor a barreira dos que querem ver essa família pelas costas.

Passadas quase duas semanas, o quadro não mudou. A família Bolsonaro parece acreditar que o lançamento do primogênito à corrida presidencial é uma boa ideia. Pode até ser. Mas é bom dar uma olhada crítica à última pesquisa da Genial/Quaest, cujo resultado saiu neste 17 de dez°.

O relativo gráfico está no cabeçalho deste post. Os pesquisadores focalizaram no segundo turno – o que já dá sinal de que não preveem vitória de ninguém logo no primeiro turno. Para o segundo, foram testados separadamente cinco cenários. Cada um mostra o presidente Lula contra um dos cinco que, bem ou mal, já demonstraram interesse em participar.

Como mostra o gráfico, todos os cenários pressupõem que Lula chegue ao segundo turno. Eles mostram a disputa de segundo turno entre Lula e os candidatos, um por vez. Para enfrentar o atual presidente, o provável adversário seria um dos seguintes:

    • Cenário 1 – Flavio Bolsonaro
    • Cenário 2 – Tarcísio de Freitas
    • Cenário 3 – Ratinho Jr
    • Cenário 4 – Ronaldo Caiado
    • Cenário 5 – Romeu Zema

Em todos os casos estudados, o desafiante recebe entre 33% e 36% dos votos declarados. Quanto ao Lula, sua pontuação oscila entre 44% e 46%. Portanto, Lula leva, com folga, contra qualquer um dos adversários.

O resultado da pesquisa é surpreendente. À primeira vista, Lula parece firme, ancorado em torno dos 45%, um ponto a mais, um ponto a menos. Quanto ao desafiante, parece que os entrevistados não dão muita importância a eles. Seja qual for o nome, o segundo colocado teria 34%, 35% dos votos, um ponto a mais, um ponto a menos.

Não é estranho que nomes conhecidos, como Bolsonaro ou Tarcísio de Freitas, empatem com personalidades cuja fama não atinge o nível nacional? Fica a impressão de que, para o eleitor, tanto faz como tanto fez o nome do candidato. Há os que não querem saber de mudança e se preparam para votar Lula. E há os que não querem saber de Lula e se preparam para votar no candidato de oposição que ficar para segundo turno.

A um ano da eleição, Lula parece ter tirado o bilhete premiado. Se nenhum fato extraordinário acontecer daqui até lá, o Brasil se encaminha para um inédito 4° mandato do pernambucano. Mas muita coisa pode acontecer, como candidaturas surpresas, desistências, atentados, facadas, crimes, batidas da PF. Tanta, tanta coisa.

Se Flávio bater o pé e seguir firme no páreo, passaremos por um inconveniente. Vai ser muito chato ter de passar mais um ano ouvindo, à exaustão, o nome Bolsonaro.

Quem pensou que estava livre, errou. Mas o dia do ostracismo chegará. Um pouquinho de paciência, senhoras e cavalheiros.

Cleptocracia & Cia Ltda

José Horta Manzano

Aquelas listas, elaboradas por observatórios internacionais, que classificam os países segundo a “percepção de corrupção”, costumam reservar para o Brasil uma posição destacada. Entra ano, sai ano, uns países melhoram, outros pioram, mas o nosso guarda duas características imutáveis: belo por natureza e corrupto por vocação.

Aliás, o termo “corrupção”, de tão batido, anda desgastado, enfraquecido. Usado com tanta frequência, já não informa sobre a infâmia que pesa sobre os responsáveis. “Fulano é corrupto” é acusação fraca demais, daquelas que não costumam levar ao tribunal, muito menos à cadeia.

E tem mais. Por definição, corrupto é aquele que defrauda o patrimônio público. O termo não serve para qualificar o mesmo delito quando ocorre entre particulares. Não se pode chamar de corrupto o dono da venda que rouba no troco. Nem o taxista que, ao levar um estrangeiro, dá uma volta pela cidade para alongar a corrida e cobrar mais. Nem o profissional de saúde que cobra um “por fora” para escapar ao tabelamento.

A melhor expressão a usar, portanto, é a mais simples, a que todos entendem e que diz tudo, dispensando explicações: ladrão. Ladrão, ladroeira, ladroagem são os termos a aplicar quando nos referimos aos altos círculos de nossa república (e não só aos altos).

Roubar não é só levar na cueca dólares de origem duvidosa ou carregar malas abarrotadas de notas verdinhas tiradas não se sabe bem de onde. A ladroagem é mais vasta. O digno parlamentar que reserva, digamos, dez milhões de reais como emenda pessoal para, em seguida, gastar esse capital numa obra viária executada por uma empresa sua, registrada em nome de um laranja, também está afanando nosso dinheiro.

O banqueiro Vorcaro, hoje entornozelado, roubou e trapaceou em transações da ordem de bilhões. Organizou convescotes na Europa para os quais convidou ministros do STF. Sabendo-se que fundos de pensão dos pequeninos foram engolfados no turbilhão do banco, as excelências do STF se tornaram, sim, cúmplices do banqueiro espertalhão. Quem aceita uma vilegiatura em Londres custeada com dinheiro desviado dos que pouco têm está sendo desonesto. É cúmplice do ladrão.

Se o distinto leitor e a gentil leitora observarem em torno, é capaz de descobrirem que estamos rodeados de ladrões. Vivemos no meio de uma população em que uns sugam os outros, todos atrás de levar vantagem e puxar a brasa para a própria sardinha. Não me digam que ditadura é a solução. Não é. Tivemos uma braba durante 21 anos, cujo objetivo era “caçar comunistas”. Roubar, sempre pôde, antes da instalação do regime e depois de sua queda.

Isso posto, é permitido sentir um certo desalento. Nosso país nasceu torto e carrega até hoje esse pecado original. Mas o Natal vem aí. É tempo de se empanturrar e, por uns dias, imaginar que se está vivendo na Finlândia. Por lá, Papai Noel passa duas vezes: na ida e na volta.

PS – Corrigindo o título:
Cleptocracia & Cia Ilimitada

Coisa de louco

Câmara Federal
Mesa diretora

José Horta Manzano

Está em tramitação um projeto de lei que objetiva tornar obrigatório um exame de avaliação psicológica para obter e para renovar a CNH. Quanto à renovação, uma exceção será reservada para os bons condutores: os que não tiverem cometido infrações poderão renovar sem avaliação.

Se dependesse de mim, essa exceção cairia. Nem sempre um comportamento perigoso no tráfego é sancionado por infrações. Um motorista agressivo, daquele tipo que pode, a qualquer momento, se transformar em potencial assassino, não é necessariamente multado a cada vez que se exacerba.

Se essa lei já estivesse em vigor e se o exame fosse sempre bem aplicado, seriam menos numerosos os homicidas que usam carro como arma de abalroar, arrastar e esquartejar desafetos. Em teoria, os condutores mentalmente desequilibrados estariam condenados a pedir carona pelo resto da vida. Sem chance de arrastar ninguém.

Sem sombra de dúvida, o costume de exigir avaliação psicológica de todo condutor de veículo a motor é medida excelente. Se, com isso, já estamos entre os campeões mundiais de mortes no tráfego, imagine se não tivéssemos o exame. Talvez o nível de agressividade tolerado precise ser revisto.

Nestes últimos treze anos, desde que dei início ao blogue, já devo ter tocado um par de vezes no assunto que vou agora abordar. Vale a pena insistir.

Exigimos avaliação psicológica de todo candidato a condutor de veículos, o que é excelente medida. Não queremos desequilibrados trafegando. No entanto, até hoje não nos passou pela cabeça estender essa medida aos candidatos a cargos públicos, especialmente aos cargos eletivos.

Se o teste psicológico fosse já obrigatório para essa categoria de cidadãos em 1960, não teríamos eleito Jânio Quadros para a Presidência, eliminando assim um dos fatores que atiçaram o desastre do golpe militar.

Figuras de mente embaçada nunca teriam passado no teste. Teríamos evitado Tenório Cavalcânti, o deputado que jamais se separava de sua metralhadora apelidada “Lurdinha”. Naqueles tempos sem detector de metais, entrava na Câmara com ela, disfarçada debaixo de uma capa preta.

Não teríamos eleito Roberto Jefferson, aquele que atirou granadas quando da visita da PF.

Jair Bolsonaro é outro que jamais teria aparecido nas cédulas eleitorais de sua primeira candidatura à vereança do Rio, em 1989.

Carla Zambelli, Eduardo Bolsonaro e outros desequilibrados também não teriam passado no exame. Reprovados direto, sem direito a segunda época.

Se a avaliação for aplicada nas eleições gerais de 2026, nosso Congresso estará higienizado, como se tivesse sido lavado com creolina(*).

Como é costume dizer, “Se a creolina falhar, só Deus pode salvar”.

(*) Não confie em aparências. Creolina não é palavra ofensiva nem politicamente incorreta. Não tem parentesco com crioulo. É antiga marca de desinfetante hoje praticamente em desuso. Exala cheiro forte e característico. O termo deriva de creosoto, variedade de alcatrão destilado.

Unção dinástica

José Horta Manzano

Quando o capitão Bolsonaro designou seu primogênito para suceder-lhe, muita gente se surpreendeu. Consideraram que o ungido talvez não dispusesse do estofo necessário para o sublime encargo de presidir nossa república. Outros acharam que, além de não estar à altura das expectativas do pai, o primogênito fosse ruim de voto – fato que, na outra ponta, teria deixado entusiasmada a oposição.

Em primeiro lugar, vamos nos pôr de acordo. Em monarquias tradicionais, não cabe ao monarca designar seu sucessor – antigas regras se encarregam de fazê-lo. Já num nascente arremedo de dinastia, como a dos Bolsonaros, tradições não há. Eis por que, com as regras ainda por escrever, coube ao patriarca apontar o próprio sucessor.

Mesmo agrilhoado pelos ferros que o entravam nos calabouços da república, teve lucidez suficiente para dar-se conta de que seu reino tinha chegado ao fim e que era chegada a hora de abrir mão de alguma ilusão de poder que ainda subsistisse. Está aí a grande prova de lucidez de um homem que, por fim, se deu conta de estar encarcerado.

Só se as circunstâncias forem realmente adversas, o filho primogênito deixará de ser candidato à sucessão do pai. Mas o caminho fica traçado: cabe ao rei posto designar o sucessor. Todo e qualquer pretendente que ouse apresentar-se como candidato legítimo a suceder ao monarca caído não passará de reles usurpador.

Até aqui, falamos de sonhos e fantasias. Na vida real, Bolsonaro acaba de se dar conta de que o futuro de seu sobrenome está comprometido. Um dos filhos, aquele que conspirou contra o Brasil, nâo deve voltar à pátria tão cedo. Outro rebento jogou a toalha e renunciou definitivamente à política. O filho mais jovem não parece ter envergadura suficiente para voos mais altos: elegeu-se vereador por uma estação balneária catarinense. A esposa é uma figura; dizem as más línguas que não passa de aventureira sem lastro e sem passado.

Eis por que o capitão entregou o bastão ao primogênito: por falta de opção.

Essa novela brasileira se encaixa no modelo latino-americano de tentativas pseudodinásticas. Já aconteceu no Peru, com Alberto Fujimoro, que designou a filha, sem sucesso. Já surgiu na Argentina, com Juan Domingo Perón, que transmitiu o encargo à esposa, que levou a aventura ao desastre. O caso do Haiti foi outro que terminou em tragédia, com Duvalier pai morto e Duvalier filho exilado.

O Brasil decente gostaria que a campanha eleitoral do ano que vem assinalasse o enterro dos populismos grosseiros que nos atormentam há décadas. “De direita” ou “de esquerda”, que acabem todos comendo poeira e abrindo alas para nova geração de políticos mais comprometidos com o eleitor do que consigo mesmos. Não custa sonhar.

O chanceler alemão e seus problemas

Friedrich Merz, chanceler da Alemanha
by Silvan ‘Swen’ Wegmann, desenhista suíço

 

Artigo publicado no Correio Braziliense de 3 dezembro 2025

José Horta Manzano

Quinze dias atrás, Herr Friedrich Merz, chanceler da Alemanha, fez uma declaração de desdouro ao Brasil, em especial à cidade de Belém, que o tinha recebido dias antes. Discursando perante uma seleta plateia na Associação Alemã do Comércio, foi direto ao ponto: contou que se sentiu feliz de poder deixar “aquele lugar” e voltar a seu país após a visita de um dia que fez à COP30. De suas palavras, exalou profundo desprezo.

O mundo estranhou a declaração. No Brasil, então, ela causou forte rejeição ao personagem. Arguiu-se que era de mau gosto tratar assim o país que o havia acolhido. Ficou, principalmente, a desagradável sensação de um visitante arrogante, que houvesse explodido devido ao acúmulo de pressões profissionais ou pessoais. Talvez o calor equatorial tenha sido demasiado para seu fusível, que acabou queimando.

Que ninguém tome este escrito por tentativa de desculpar o chanceler alemão. Não é esse meu propósito. É que, quando o chefe do governo de um país importante age como esse senhor agiu, fico curioso para descobrir o que lhe pode ter passado pela cabeça naquele momento. Excetuando raros líderes como o atual presidente dos EUA, não é comum ouvir essa gente falando abobrinha.

Quando pisou o solo brasileiro em Belém, o senhor Merz estava a dois dias de seu aniversário de 70 anos. Talvez o aproximar da cifra arredondada lhe tenha perturbado a ideia. Nem todos enfrentamos de bom humor a entrada em nova década de vida. Excetuando essa desculpa anedótica, os caminhos atuais da política de seu país devem estar-lhe dando calafrios.

Para os mais jovens, a queda do Muro de Berlim faz parte da história. Já para os mais antigos, foi acontecimento espantoso, acompanhado no dia e na hora. Este escriba teve o privilégio de assistir pela televisão ao vivo.

Naquela noite de 9 para 10 de novembro de 1989, os principais canais da Europa suspenderam a programação para transmitir as inacreditáveis imagens que chegavam de Berlim, o povo aglomerado ao pé do Muro, centenas de jovens inebriados diante do inesperado momento de liberdade, os carrinhos Trabant estalando e petardeando ao transpor a passagem entre a Berlim-Este e Berlim-Oeste, gente a pé, gente de bicicleta, todos de sorriso deslumbrado, recebidos por uma turma também sorridente e solícita apesar da noite fria de novembro. Foram imagens que ficaram na retina para nunca serem esquecidas.

Menos de um ano depois, estavam reunificadas as duas Alemanhas, que eram relíquias da divisão do país decidida na Conferência de Potsdam, em 1945. Assim, em princípio, a Alemanha Oriental (comunista) e a Ocidental (capitalista) passaram a formar um único país. No entanto, passados 36 anos, as duas antigas Alemanhas ainda não formam um Estado uniforme.

O salário é um bom exemplo. Nos estados da antiga Alemanha Ocidental (capitalista), o salário mensal médio é hoje de 4.810 euros. Já nos estados que formavam a antiga Alemanha socialista, o salário é de 3.973 euros. O número de desempregados é outro indicador da desigualdade. Nos estados da antiga Alemanha Ocidental, a taxa é de 5,7% de desempregados, enquanto ela é de 7,5% nos estados orientais. A diferença dos PIBs per capita é ainda mais impressionante. No Oeste, 54.162 euros, e no Leste, 37.711 euros. O envelhecimento da população é outro indicador que denota a baixa atividade produtiva do Leste em contraste com o Oeste.

Essas disparidades entre estados alemães é perigosa. O permanente descontentamento da população da antiga Alemanha socialista é caldo de cultura propício à criação de partidos políticos saudosistas, que se aproveitam da insatisfação para se implantar e florescer. O AfD, partido da extrema direita xenófoba e neonazista, professa ideologia nacionalista, excludente, antieuropeia e anti-imigração. A cada nova eleição, tem plantado raízes cada vez mais profundas na antiga Alemanha comunista. Eis o exemplo de um movimento que, a continuar crescendo, periga balançar a democracia alemã.

Herr Merz é primeiro-ministro há somente 6 meses. Além das dores de cabeça causadas por uma Ucrânia invadida pela Rússia e das contrariedades do dia a dia, o chanceler tem esse problemão de conduzir duas Alemanhas que se entendem mas não se compreendem. Ele não quer passar para a história como aquele que facilitou a volta do nazismo a seu país.

A moléstia do general

José Horta Manzano


O caso peculiar do general que, depois de ter sido diagnosticado com Alzheimer, ainda ocupou, durante anos, um dos mais altos cargos da República.


O ônus da prova
Nos casos judiciais que viram notícia, tenho reparado a frequente ocorrência de uma prática um tanto curiosa. Não sei se é regra legal ou simples costume judicial. Tenho observado que, quando um réu (ou até um condenado) alega sofrer de uma patologia qualquer, cabe a ele mesmo, por meio de seu(s) advogado(s) trazer a prova da veracidade da informação. O caso se repete agora, com o mal de Alzheimer do general Heleno.

É verdade que é obrigação do acusado provar aquilo que alega. Se garante que estava em tal lugar (na hora do crime, por exemplo), tem de trazer testemunhas ou provas que possam ser aceitas pelo tribunal. Cada alegação sua tem de ser amparada por testemunhos ou provas, caso contrário, não será considerada.

No entanto, no caso de uma doença presente, seria mais razoável que o próprio tribunal se encarregasse de mandar o réu enfrentar uma junta médica, composta por profissionais escolhidos pela Justiça. A função da junta seria proceder aos exames necessários para confirmar ou invalidar as alegações do réu. Encarregar o doente de trazer atestados de seus médicos pessoais não me parece boa prática. Abre a porta para atestados de compadrio.

O STF deveria fixar um trato. Que o acusado se apresente diante da junta médica. Caso fique decidido que seu estado é compatível com o encarceramento, vai preso. Daqui a seis meses (ou um ano, conforme a Justiça determinar), o indivíduo passaria de novo diante da junta. E assim por diante, de ano em ano. Enquanto sua saúde fosse julgada compatível com a prisão, ele continuaria preso. Me parece solução equitativa.

A progressão do mal
Segundo artigo de Elio Gaspari de domingo 30 de novembro, o Alzheimer do general está detectado desde 2018, ou seja, sete anos atrás. De lá pra cá, Heleno já foi ministro no governo de Bolsonaro durante anos, e em seguida passou pela casa “conspiração de golpe”. Foi preciso chegar ao fim do processo e à condenação inapelável para o Brasil ficar sabendo que o militar sofre de uma patologia neurodegenerativa progressiva.

Essa moléstia progride com velocidade diferente, conforme o paciente. No caso do general, a progressão parece ser lenta. É possível que a afecção tenha sido detectada, mas que as funções cognitivas não estejam ainda comprometidas a ponto de fazer que a prisão perca o sentido. Mas esse diagnóstico, só uma junta médica independente poderá dar.

Passaporte italiano

Moggio Udinese, vila de 1.750 habitantes

José Horta Manzano

Vosmecê decerto conhece alguém que obteve, ou está tentando obter, o passaporte italiano. Até o começo deste ano, em matéria de transmissâo da cidadania, a Itália se comportava como verdadeira mãezona. Todo descendente de italiano, ainda que fosse de terceira, quarta, quinta geração (ou mais) tinha direito a recuperar a nacionalidade do antepassado – desde que conseguisse a prova documental da ascendência, o que nem sempre é fácil, quanto mais gerações separassem o aspirante do antepassado que emigrou.

Uma lei, votada no parlamento de Roma, veio dar um basta a essa prática que encantava mais e mais brasileiros. A possibilidade de transmissão da cidadania ficou restrita a filhos e netos do antepassado italiano. Mas por que razão foi esvaziado o antigo pacote de bondades?

Há várias razões. Entre as principais, estão as que cito abaixo.

A extrema direita
A Itália é atualmente governada por uma coalizão de direita, com forte componente de extrema-direita. A primeira-ministra, por exemplo, é Giorgia Meloni, afiliada a um partido com raízes no neofascismo do pós-guerra. Como se sabe, a direita extrema professa ideologia excludente, anti-imigração, antieuropeia, contra tudo o que não for legitimamente italiano.

Os descendentes de italianos emigrados, nascidos no exterior, têm poucas referências de italianidade. Em geral, o antepassado que chegou ao Brasil já faleceu, talvez seus filhos também. Com o tempo, a ligação com o pais de origem vai se esmaecendo. A língua e os costumes se perdem. Muitas vezes, o sobrenome é o único traço que distingue um italiano de terceira geração de um seu conterrâneo que não tenha antepassados italianos.

Além desse ponto, as autoridades italianas tinham chegado a um ponto de saturação com o comportamento de brasileiros aspirantes ao cobiçado passaporte.

Os candidatos
Para obtenção do reconhecimento da nacionalidade, a regra era (e continua sendo) entrar com a papelada no Brasil, por meio do consulado italiano, em seguida aguardar o andamento do processo. Estes últimos tempos, porém, a fila estava comprida e a espera era longa e angustiante.

O brasileiro, pouco afeito a se conformar a regras (que são sempre feitas para os outros, não para ele), procurou – e encontrou – atalhos para furar a fila e passar à frente dos outros.

Um caminho que os mais abonados utilizaram foi entrar com um processo administrativo na Itália exigindo a outorga dos documentos italianos aos quais tinham direito. Pouco acostumada a ver a Justiça sendo usada de atalho, a Itália não pôde deixar de dar seguimento às solicitações e fazer esses requerentes passarem à frente dos outros.

Não preparadas para enfrentar essa montanha de novos pedidos, as prefeituras dos vilarejos, lutando com falta de pessoal, tiveram de tirar funcionários de outras funções e deslocá-los para cuidar da inscrição dos “novos” cidadãos. A grita chegou aos ouvidos dos deputados em Roma.

Vosmecê pode argumentar que a imigração italiana não se dirigiu somente ao Brasil, mas também a outros países. Tem razão, mas os maiores contingentes se deslocaram para o Brasil, a Argentina e os Estados Unidos. Os que foram para a América do Norte não parecem mui desejosos de recuperar a antiga nacionalidade. Os argentinos já descobriram o caminho das pedras há décadas e, hoje, já têm em mãos o precioso documento. Sobram os brasileiros, que só se aglomeraram à porta dos consulados nos últimos 20 ou 25 anos.

Bom, deu ruim, como convém dizer. Quem tem pai, mãe ou avós italianos, está salvo. Mas é bom não facilitar e correr já, porque leis podem piorar a todo momento. Quem só tem bisavô ou antepassado mais distante, pode dizer adeus.

Nossa característica nacional de achar normal passar a perna nos outros para obter vantagem pessoal, ainda que seja por vias ilegais, aprontou mais uma.

O MP da região da Venezia Giulia (norte da Itália) ficou encafifado com o fato de Moggio Udinese, um vilarejo das redondezas, de somente 1.750 habitantes, ter recebido nada menos que 84 solicitações de reconhecimento de cidadania italiana nos últimos 6 anos, todas provenientes de requerentes brasileiros. Todos eles declaravam residir na vila, sempre no mesmo imóvel, com atestado de residência em perfeita ordem, fornecido pela prefeitura. Muito estranho.

Feitas as investigações, descobriu-se que a clientela de brasileiros era presa fácil para qualquer quadrilha, ainda que mambembe. Com atestados falsos, documentação adulterada, cumplicidade de funcionários da prefeitura e, mui provavelmente, anuência do prefeito, estava formada a corrente da felicidade. Pela módica soma de 6.000 euros (37 mil reais), às vezes um pouco mais, o aspirante acabava conseguindo seu passaporte no prazo de um ano. Talvez precisasse apresentar-se uma ou duas vezes pessoalmente na Itália, para comprovar a presença. Se preferisse não ter de vir à Itália, bastava pagar um suplemento.

A notícia saiu hoje nos jornais da região da Venezia Giulia. Não se sabe ainda quais serão as consequências da falcatrua. Por mim, confiscava os documentos italianos dessa turma toda, e mandava cada um para o fim da fila, a esperar sua vez como todos os outros. Se quisessem obter restituição dos seis mil euros, que processassem o chefe do bando.

O lampião do capitão

José Horta Manzano

Circula pela mídia nesta terça-feira um vídeo mostrando uma revoada de repórteres, microfone na mão, todos correndo atrás de um comboio de automóveis de vidros fumês que se dirige à entrada da Polícia Federal de Brasília.

Quando vi a cena, imaginei que tivessem descolado um filmezinho do Bolsonaro sendo preso. Mas logo me lembrei que ele foi levado embora no lusco-fusco matinal de uma Brasília cochilenta, na maior discrição, sem algema e sem fotógrafo.

Atrás de quem estariam aqueles repórteres, então? Seria mais um figurão sendo conduzido para se explicar com o delegado? Olhei até o fim do vídeo. Surpresa: não era novo prisioneiro, era apenas uma visita. Tratava-se de um dos filhos de Bolsonaro, aquele que é senador e que era considerado moderado, até a semana passada, quando decidiu convocar uma prece coletiva para salvar o pai da cadeia. Vinha chegando para visitar o pai encarcerado.

Agora cogito: será que não estarão dando a essa gente uma importância que não têm? Bolsonaro foi eleito em 2017, por um desses golpes de má sorte que a natureza reserva a nosso país. Setenta anos atrás, o lema de Juscelino Kubitschek era “50 anos em 5” – anos de progresso e desenvolvimento, subentendia-se. O lema que se pode hoje atribuir ao governo de Bolsonaro é “40 anos em 4” – anos de destruição e marcha à ré, entende-se.

O capitão, como figura política, está morto e enterrado. Pode até ressuscitar um dia, que nada é impossível em nosso país, mas por enquanto está fora do jogo. A partir daí, não atino com a motivação de quem despacha a revoada de microfones atrás do filho que vem à cadeia visitar o pai condenado. Será a vontade de algumas redações de manter acesa a chama do lampião do capitão? Se não for isso, qual será o motivo de tanto auê?